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O Encontro (Depoimento de Breno)

Enviado por Guilherme, ter, 06/08/2010 - 17:44

Alter do Chão é uma vila incrustada na floresta amazônica, às margens do rio Tapajós, bem próximo à sua desembocadura no rio Amazonas. Local de beleza inigualável, convida o visitante à contemplação e à integração com as forças da Natureza. Lá se encontram praias de águas doces e calmas, com areia branca que chega a doer os olhos. Às margens do rio, excetuando-se a pequena área urbana, se impõe a floresta, com seu sem-número de plantas e animais. Cheguei em fins de novembro, época de seca, quando as praias expostas e o céu azul-claro se mostram irrecusável convite à meditação. Vinha de Belém, com Layse, minha companheira, onde participamos do Seminário de Áreas Protegidas e Inclusão Social, ocorrido na Universidade Federal do Pará. Aproveitamos a proximidade para emendar dez dias de férias neste balneário, alcunhado pelo turismo local como “Caribe brasileiro”.

Lá tive minha primeira experiência com a ayahuasca, que aqui relatarei. Certo da insuficiência da linguagem em descrever a plenitude das sensações vivenciadas, acredito que tal limitação seja compensada pela vontade de registrar o episódio, com vistas a compartilhá-lo com quem se interesse. Friso esta ressalva, amigo leitor, o relato que se segue é redução grosseira da verdadeira e inexprimível experiência.

Foi na Irmandade Comunindios Bandeira Branca que se deu a iniciação. O ambiente, de muitas árvores e silêncio, transmite muita serenidade. Conjuga sacralidade com simplicidade. Há uma modesta casa coberta e muito espaço para barracas de camping. O espaço principal é uma grande maloca de palha, com cerca de 20 metros de diâmetro, onde se dá a consagração da ayahuasca, ou Xamãe, como prefere chamar a Irmandade.

Era fim da tarde de 5 de dezembro de 2009, um sábado, quando chegamos eu e Layse _ela já havia feito sua iniciação dias antes, no mesmo local. Fomos recebidos pela Pan, xamã e filha de Paulo Brasil, fundador da Irmandade, que não se encontrava naquele dia. Recepcionou-nos muito simpática e nos deixou à vontade para que lavássemos e cortássemos as frutas que havíamos levado. Logo depois conhecemos outras pessoas com quem compartilharíamos o trabalho _assim como na tradição do Santo Daime, a Irmandade Comunindios define a ingestão da ayahuasca e sua experiência subseqüente como “trabalho”, o que denota a natureza ritualística e solene desta prática. Um casal de jovens alemães, que falavam muito bom português considerando os poucos meses em que estavam no Brasil, se reuniu conosco para preparar as frutas. Eles haviam já experimentado o chá também há pouco tempo. Marcelo, servidor do Incra e já praticante há anos _ele mora na Irmandade_, conversou conosco sobre questões ambientais, ao descobrir que trabalhávamos com esta temática. Segundo ele, o uso mais disseminado do Xamãe entre operadores da política ambiental traria resultados positivos, ao proporcionar uma relação mais sentimental com a Natureza. Enquanto conversávamos, eu acompanhava o trabalho cauteloso e dedicado de um rapaz, que organizava um canteiro de plantas. Ao fim, elogiei o resultado e nos apresentamos. Era Indios, irmão de Pan. O nome significa “em Deus”; da mesma forma que Comunindios significa “comum em Deus”, preceito basilar da Irmandade, segundo o qual somos todos Um, quando em conexão com a Divindade. Em comparação ao Santo Daime ou à União do Vegetal, por exemplo, a doutrina da Bandeira Branca é bem menos complexa e litúrgica. Fundamenta-se em três princípios: Amor, Verdade e Pró-criação. Os trabalhos são acompanhados de músicas _a maioria composta por seu fundador_ e é conferida grande liberdade ao praticante para portar-se como melhor se sentir _sentado, em pé, dançando, enfim, como queira_ desde que não interfira com o trabalho dos demais. Se procura resguardar a cada praticante o maior proveito possível do Xamãe, o que se manifesta através de experiências e ensinamentos específicos, dependendo da condição física, mental e espiritual de cada um.

Indios disse que não participaria do trabalho daquela noite, pois ainda se sentia inspirado por sua experiência anterior. Perguntou-me o que procurava com o Xamãe. “Conhecimento”, respondi. “Tenho investigado a natureza da matéria e sua relação com a consciência, principalmente à luz da física quântica. Mas agora estou numa encruzilhada da razão, não consigo avançar com o raciocínio e espero com o chá sentir aquilo tudo que tenho tanto pensado”. Ele sorriu amigavelmente e aconselhou-me a permanecer aberto, sem preconceitos, ao que o Xamãe me apresentasse.

Fomos então para a grande maloca armar nossas redes, arrumar lenha para a fogueira e dispor algumas esteiras de palha ao redor da mesma _é importante preparar o ambiente antes da consagração. Logo após anoitecer, Pan convocou o grupo para a grande maloca.

Sentamo-nos em círculo e ela perguntou quem tomaria o chá pela primeira vez. Eu era o único, de modo que as explicações seguintes foram destinadas principalmente para mim. Falou sucintamente sobre a origem inca-amazônica da ayahuasca, sobre seu uso religioso e sobre seu uso legalizado no Brasil. Deteu-se um pouco mais nos efeitos, reiterando que estes variam bastante de pessoa pra pessoa, mas que de modo geral se sente grande relaxamento e amor pela natureza. Disse ser muito comum a limpeza: vômito ou diarréia, razão pela qual se indica abstinência alcoólica e alimentação frugal como preparação para a consagração. “Se o Xamãe quiser deixar o seu corpo, não lute contra isso”, explicou. “Ele já terá cumprido seu papel”.

Nos levantamos, demos às mãos e recitamos três vezes o mantra Om. O som foi ligado e assim permaneceu por toda a noite. Tomamos a primeira dose. O chá produzido pela Bandeira Branca é particularmente encorpado, concentrado e viscoso. O sabor amargo da ayahuasca não foi problema para mim, mas de qualquer forma, logo após beber a quantidade medida especificamente para cada pessoa e servida em pequenos copos de plástico, Pan sugeria que mastigássemos uma pequena fatia de abacaxi, para quebrar o amargor. De fato, até gostei do sabor, que remete imediatamente à sua origem vegetal: tem gosto de madeira. Fiquei com o gostinho na boca e na garganta durante toda a prática.

Nos desejamos mutuamente um bom trabalho e como indicado cada um procurou se reservar à própria viagem interior. Sentei junto à fogueira, mas o som externo à Irmandade, música brega no estilo amazônico, me incomodou um pouco. Fui para bem perto da caixa-de-som ao lado da mesa de consagração, Marcelo aumentou um pouco o volume e ficou bem melhor. Procurei entrar em estado meditativo, com controle respiratório aprendido com a Yoga, aguardando os efeitos. Neste momento, é fundamental manter-se tranqüilo e sem muitas expectativas. Comecei a brincar com as distorções visuais causadas pela visão direta no foco de luz da fogueira. Fechava os olhos e continuava vendo a luz. Movendo a cabeça a luz se movia. Nada especial, já que tais efeitos são obtidos mesmo sem nenhuma ingestão psicoativa, mas pareceu uma preparação paulatina ao que viria a seguir.

Voltei pra fogueira e deitei-me numa cadeira de praia. A música mudou.

Clareia
Clareia-me
Clareia meus sentimentos, clareia

Comecei a sentir a Força do chá. A música invadiu minha mente e houve profunda lentificação temporal. A música tocava devagar e de olhos fechados fui aos poucos saindo do tempo convencional.

Clareia meus pensamentos, clareia

Daí em diante, a ordem cronológica dos fatos é imprecisa, contudo a sensação é profundamente diversa da causada por psicotrópicos que também conferem alterações na noção de tempo. Em vez de desorientação, parece surpreendentemente que se está despertando do tempo formal e restritivo da realidade imanente.

Clareia minha intuição, clareia

O corpo foi ficando muito leve. Sua primazia sobre a mente foi se esvaecendo. A consciência ampliou-se do corpo para o externo. Comecei a sentir o externo, a partir do centro de uma consciência calma e impessoal. Esta é uma das sensações mais impressionantes que acompanha todo o trabalho: não há desconexão, embriaguez ou perda de lucidez. Ao contrário, experimenta-se profunda ampliação da consciência, sente-se mais lúcido.

Clareia minha razão, clareia

De olhos fechados, experimentei a primeira miração. Saiu do centro do meu peito uma escada, que luzia todas as cores do arco-íris. Foi subindo de forma imponente e graciosa em direção ao céu; do meu corpo deitado ia em 90 graus em ascensão vertical precisa, até se perder de vista. No alto, acompanhando a escada vi a Cruz.

Senti o rosto sereno e amigável de Jesus e chorei um choro de séculos. Corriam as lágrimas, trazendo profundo alívio e gratidão. Formou-se em meu rosto sorriso. Entendi a Cruz. Entendi o arquétipo que Jesus forneceu à humanidade, para onde podemos mirar quando nos deparamos ao sofrimento. Não precisamos nos render ao sofrimento, pois o arquétipo já foi instalado no inconsciente coletivo da humanidade. Ao meditarmos sobre o sofrimento de Jesus, libertamo-nos em alegria. O arquétipo da Cruz alivia o sofrimento da humanidade em redenção, entendimento, amor e determinação. A Cruz não é sofrimento, mas sua superação. Sorri e o mundo sorriu.

Bem lá no fundo, ouvi um sino. Era Pan convocando para a segundo dose. Aos poucos os praticantes foram chegando à mesa na maloca. Ela olhou em meus olhos: “Breno, está tudo bem? Sentiu a Força?”. A resposta afirmativa pareceu sair de uma voz interna. “Você quer diminuir, aumentar ou manter a Força?”. “Quero manter” e bebi o outro copo.

Caminhando de volta à área externa, com a notável sensação de consciência ampliada, ungido por um Amor transcendental, meu corpo seguia lentamente, parecendo flutuar. Fui várias vezes à floresta circundante para urinar, pois havia bebido muita água durante toda a tarde de calor amazônico. Os momentos na floresta forneciam impressionante sensação de acolhimento e unidade. Senti a fraternidade de Gaia. Tudo vive, todos irmãos. Enquanto urinava percebi pequenos olhinhos na folhagem de uma palmeira. Assim como eu sentia que observá-la, ela reciprocamente me via. Senti solução para o paradoxo quântico da relação sujeito-objeto, observador-observado. Em outra palmeira próxima parei. Sua folhagem era levemente mais alta que eu. Entre as folhas vi a Lua. O luar descia, se juntava às folhas _parecendo que seguia de cima pra baixo e de baixo pra cima_ e gotejava qual chuveiro de prata líquida em mim. Sorriso de criança. Não gargalhada, mas sorriso, como se entendesse e sentisse a Unicidade e o Mistério sem verbalizar. “Hare Om. Hare Hare”, não era eu quem falava, era o mundo inteiro através de minha boca.

De volta à fogueira, deitei na esteira e senti prazer de existir. Abri os olhos e vi Marcelo ao meu lado. Travamos uma conversa com alguma dificuldade inicial de entendimento por minha parte, após o que entendi que ele pedia se eu poderia atiçar um pouco a fogueira. Pareceu a mim rapidamente que já haviam se passado muitas horas e que o Sol já estaria prestes a nascer. Quando percebi que ainda estávamos em plena noite e que o trabalho tinha há pouco começado, juntei alguns gravetos dispostos ao largo, os dispus na chama central e soprei. A fumaça me causou desconforto, pela primeira vez desde o início do trabalho. Afastei-me para um banco baixo, estreito e comprido, deitando com pernas e braços esticados. Não queria manejar novamente a fogueira, por isso me afastei. Observei este pensamento e senti egoísmo, que felizmente passou rápido quando notei que Marcelo dançava e a alemã seguia cuidando do fogo. Refleti que não deveria haver obrigação durante o trabalho, a fogueira seria cuidada por aqueles que sentissem necessidade de uma relação próxima a ela. Entendi porque fomos precavidos a evitar conversar muito, o que pode desviar a atenção da prática. Vi que Layse estava muito bem, dançando graciosamente com sua canga. Depois sentou-se para conversar com Marcelo. Fiquei tranqüilo e voltei à mente.

Vieram à tona pensamentos íntimos, alguns dos quais procurara afastar durante a vida. Veio o pensamento em meu irmão. Thiago havia morrido atropelado aos 13 anos, na minha frente, quando eu tinha 14. O tempo já havia feito com que esta profunda cicatriz em minha alma cicatrizasse. Mas eu procurava sempre não pensar sobre esta perda, com um misto de temor e culpa. O Xamãe, entretanto, decidiu que era importante voltar ao assunto. Primeiro veio o Amor pelo Thiago. Veio íntimo e imenso, mas sem apego ou atropelo. Serenamente o abençoei mentalmente e senti imediatamente sua benção de volta. Conversamos sem palavras. Senti que naquele momento tinha a impressão de como poderia ser seu estado atual, fora do tempo e pleno de entendimento, paz e amor. Sumiram a culpa e o medo. Sua missão na Terra, como irmão, amigo e filho querido, fora cumprida com louvor. Ficaram seus ensinamentos e sua graça. Que alívio! Chorei e sorri. Desde então volto quando quero e preciso ao Thiago e sinto gratidão por tê-lo tido como irmão. Vieram meus pais, que estão vivos e saudáveis. Entendi o que sempre julgara ser seus defeitos e fiquei grato por esta compreensão. Os defeitos são simultaneamente meus e, sendo bem processados, levam ao aprimoramento. Senti profundo amor pelas virtudes dos meus pais e os reverenciei por serem e existirem. E por terem me educado. Os abençoei e fui abençoado. Alívio, lágrimas e sorriso. Daí revi muitos amigos. Os amei como nunca e percebi como cada um é importante na grande rede da vida. E que no final das contas, a grande rede é o Real, tendo o Amor como amálgama. “Hare Om. Hare Krishna”.

Sentei e dancei com as mãos a música conhecida que estava tocando. Mais um sino.

Desta vez, respondi à Pan que poderia aumentar um pouco a Força. Já não a temia. Ainda assim, o conteúdo do copo foi menor do que nas doses anteriores. Soube depois que a última dose deve ser assim, pois já há bastante influência do Xamãe. Há trabalhos onde basta a primeira dose. Varia de momento para momento e de pessoa para pessoa.

Voltei ao banco e comecei a suar. Trouxe uma esteira e deitei. Meu corpo parecia colado à Terra. Senti que algo acontecia com meus processos fisiológicos e isso afastava a concentração mental. Mas um peso me colava ao chão. Busquei forças e decidi que precisava fazer a limpeza. Como estava com estômago muito vazio, fui à mesa e comi pedaços de frutas e bebi bastante água. Em pouco tempo, fui para o mato e vomitei. É simplesmente impossível descrever a sensação seguinte. A limpeza física chega a ser insignificante em comparação ao sentimento de limpeza espiritual. A Força chegou com imensa luminosidade. Bem-estar inenarrável. “Shanti. Shanti”. Dancei de corpo inteiro, junto com as árvores. Era Gaia quem dançava.

Layse chegou com um copo d´água. Estava linda, com uma trança no cabelo. Senti nela o Amor universal. Gargalhamos. Dançamos. Louvamos nossos amigos, nossa cadelinha Vida e todo o Universo.

Fomos tomar banho e voltamos a deitar na esteira, agora em silêncio.

De olhos abertos, conversei com as estrelas. Brincava com meus óculos, os colocando e tirando. Com as mãos levantadas, em dança, fechei uma estrela entre os dedos indicador e polegar. O enorme cabe no mínimo. Cada estrela contém todo o Universo; mão e estrela são irmãs. Da luz difusa que vinha de uma lâmpada no caminho dos banheiros, distingui o trajeto dos fachos até minha mão. Meus dedos transformaram-se em raios luminosos e então percebi que tudo é Luz. As pesquisas ansiosas pela física quântica fizeram sentido como nunca. Me pareceu que toda minha vida, os estudos, a Yoga, as frustrações e conquistas, as dúvidas, as vãs certezas, tinham uma razão; tinham sido preparativos necessários para aquele momento, onde o Tempo parecia parado, à velocidade da Luz. Todo meu egoísmo e vaidade eram fugazes e deveriam, anulando-se, se dispersar na Luz absoluta, perene e infinita.

Voltando o olhar ao Céu, que então espelhava leve claridade da madrugada, tive a última miração. Uma nuvem lentamente tomou a forma difusa de rosto humano, em perfil. Lentamente acompanhei a transformação: bigode, barba, óculos e rabo-de-cavalo. Sim, eu mesmo era a nuvem! Lá, navegando lentamente pelo céu. Somos todos Um. Que maravilha!

(...)

Os ensinamentos proporcionados pelo Xamãe permanecem. Estão latentes no Ser, na Natureza e na Mente, basta ouvi-los conscientemente e transformando-se transformar o mundo. As vicissitudes da vida teimam em nos desviar do Caminho. Mas vale o esforço de procurar se manter Nele, procurando sempre ser menos eu e mais Nós.

Paz, Amor e Bem, amigo leitor.

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