Depoimento - Caio - 2011 - SP

Há anos, ouvia falar de Santo Daime e Ayahuasca. Ouvi de tudo. Desde os alarmistas: "é um perigo! É como uma droga alucinógena como outra qualquer!! Pode ser uma viagem sem volta!!" Os anti-religiosos: "vai virar fanático!" E os céticos: "não é nada! É só uma viagem muito louca, ponto!"

Na verdade, nenhum deles tinha experimentado. Preconceitos, e mais preconceitos.

Mas, por outro lado, havia muita gente interessante dizendo que era uma experiência de transformação. Que te coloca em estados alterados de consciência que só com muitos anos de experiência em meditação transcendental, e yoga avançado, e ainda mais muita disponibilidade pessoal e maturidade emocional podem te trazer...

Essa segunda turma sempre me deixou muito curioso.

Após uma série de vivências, e experimentações com auto-consciência, fui convidado um pouco por acaso para minha experiência com Ayahuasca.

A situação é estranha: um monte de gente que não se conhece. Todo mundo disponível, de cara simpática, abertos. Sim, mas ninguém sabia muito bem o que o outro "era": mais ou menos careta? Viajandão?

O lugar, mais estranho ainda: depois de uma longa caminhada no mato, chega-se a uma casa afastada e isolada, com um pessoal simpático te recebendo...
Mas, no meio do mato! E se alguma coisa acontecer? Uma parada cardíaca? Uma overdose?

Tensão no ar... Mas muita simpatia e olhares amigos.

Bom, vamos nessa.

Depois de uma ameaça de chuva, que interrompeu a palestra preparativa, o Shaman e organizador do evento nos informa das regras do processo: quando pode-se beber, o quanto pode-se beber, e acalma os ânimos dizendo que: "se sentir que vai morrer... Morra! Você vai fazer uma viagem incrível, e voltar profundamente alterado por ela."

Hmm....

Será? Sei lá!

Bom, estou aqui, vamos lá.

Bebi a primeira dose, do tamanho de uma xícara de café. Gosto parecido com assaí, apenas mais amargo. Mas, que não deixa de ser agradável.

Reações estranhas (alertaram quanto às reações gastro-intestinais...).
Mas, nada incrível. Aparentemente, as reações são muito diferentes de pessoa para pessoa.

Sentei e me acomodei.

Depois de alguns segundos, ou foram minutos?, senti um profundo relaxamento, e minha visão começou a ficar alterada. Sendo artista visual, tenho bastante sensibilidade visual e controle do que percebo pelos olhos... Algo estava diferente...
À medida que relaxava, mais a visão se alterava. E quando fechava os olhos, mais estranha a coisa ficava: o universo visual que está sempre ali conosco começou a se alterar também; imagens cada vez mais incríveis foram se acumulando.
As folhas das árvores, as pessoas, as luzes. Padrões geométricos e de interferências de ondas. Composições muito complexas...

Se fosse descrever tudo, ou mesmo só um pouco, do que vi, escreveria uns cinco volumes de 300 páginas...

O que importa é que sentia uma profunda relação entre os diversos níveis de consciência que sabia que possuía, mas nunca tinha experienciado-os com tanta clareza.
E durante todo esse momento (que depois verifiquei ter demorado duas horas e meia, mas parecia muitos dias) fui inundado por imagens de uma incrível riqueza de detalhes e beleza -- algumas horríveis, também -- mas todas muito impressionantes. (Seriam as chamadas "mirações"?)

Bom, a primeira "viagem" foi muito divertida, interessante, mas não muito profunda emocionalmente. Ou quanto ao auto-conhecimento.
E achei que apenas uma dose, para mim, estava de bom tamanho nessa primeira experiência.
Quando chamaram para a segunda dose, fiquei sentado, apreciando as reações e sentido meu corpo-no-mundo.

Incrivelmente, depois de um ponto, efeito passou muito rápido. E percebi que iria ficar esperando horas até que todo mundo acordasse do processo e pudéssemos ir embora.
Não tinha clareza naquele momento, mas eu terminava de experienciar um momento extremamente egóico, e só estava preocupado comigo mesmo, e no que iria fazer depois daquilo...

Decidi que não desperdiçaria a oportunidade, e iria tomar uma segunda dose. Mas pedi apenas um terço do que tinha tomado na primeira. Vamos com calma!

Andei um pouco de pé, vendo o mundo como que fosforescente por lentes grande angular... Fascinante! (Diria Spock...)

Ao sentar, relaxei completamente, e entrei em um segundo momento.

A música me irritava profundamente. Desafinada, precária, sem melodia... E algo, além disso, me incomodava nela ainda mais, algo intangível. Mas que, sob o efeito do chá, me parecia totalmente intolerável. Cheguei a berrar: "a música está desafinada! Que saco!" Mas acho que ninguém ouviu (ainda bem!).

Então, algo profundamente importante ocorreu: me toquei do que estava me incomodando na música.
Ela era muito, mas muito mesmo, acolhedora, singela, ingênua, amorosa, e transparente: uma música feita por alguém que ama muito quem a escutará...
E me toquei que ela funcionava como uma luz na escuridão para tantos que poderiam estar enfrentando demônios (interiores e exteriores) de tremenda força! E percebi que o que me irritava era eu mesmo: me negava aquele acolhimento, aquela singeleza, aquela ingenuidade de quem ama, não importa o que...

Lembrei de meu pai, e de como ele tinha dificuldade de expressar carinho, atenção, acolhimento. Como ele massacrou eu e meus irmãos, tantas vezes...
Fiquei um pouco decepcionado, porque já sabia desse problema com meu pai há muito tempo. E foi um assunto que trabalhei inúmeras vezes em terapia, vivências e meditação.
Mas, algo aconteceu: vi meu pai pequeno, com 12 anos, sozinho, vivendo na casa de um irmão mais velho, abandonado pela mãe e pelos outros irmãos, chorando na cama pela mãe que tanto amava.
Fui até ele, e disse: "fique tranqüilo, não se sinta só, eu estarei sempre aqui para você!" E ele me perguntou: "mas quem é você?" E, disse: "sou seu filho!" "Ahn?" E expliquei: "você vai me conhecer daqui alguns anos, quando eu nascer. E eu serei sempre seu amigo!"

Entendi que, para perdoar meu pai, eu teria que sentir a dor que ele sentiu quando foi abandonado, quando teve que lidar sozinho com o medo, a solidão e a tristeza.

Chorei muito, de um jeito muito aliviante, como se algo saísse de mim, e sentia que algo que ME perdoava, por ter odiado meu pai, odiado pelas coisas que ele tinha feito.
Aprendi que o AMOR é como um espelho: você ama, e é amado, e você perdoa, e é perdoado.

Lembrei de minha mãe, e do sofrimento dela, de suas histórias horríveis de infância. E, com ela, a coisa foi diferente: logo vi o sofrimento que minha avó passou, e por isso infligiu aquele sofrimento à minha mãe. E pensei: "quando é que isso termina? Na origem da humanidade? É muita emoção! Não vou conseguir lidar com isso!"

E vi minha família. Pessoas que já se foram, outras que vivem, mas estão distantes, como uma floresta de almas, de pessoas conectadas entre si, em uma tapeçaria espiritual, como árvores, compondo um mundo de conexões e amor.

Fiquei um tempão contemplando essa imagem, chorando e perdoando tantos parentes que me machucaram, se machucaram e machucaram outros...
Tudo parecia mais leve, os erros pareciam pouco importantes.
E o amor era a coisa mais importante.

Então, uma surpresa: a música que me irritava tanto, mudou: parecia terna, carinhosa, singela, como um pai que brinca com os filhos antes de dormir, no quarto, fazendo teatrinho, cantando e brincando.

Me senti profundamente seguro: a vida é acolhedora, amorosa e perdoa tudo!

Meu corpo ficou leve e tranqüilo.

Fiquei sentado mais muito tempo, à medida que as pessoas foram saindo da "força", e começavam a perambular.

Me levantei e fiquei olhando o mundo, as árvores, a noite. Tanta beleza, tanta força e tanto AMOR.

Acho que nunca me senti dessa forma: tão conectado com o mundo e com o amor das outras pessoas.
Tudo pareceu mais leve, mais acessível, mais tranqüilo e alegre.

Tantas imagens e vontades antigas, e esquecidas, começaram a vir a tona, e continuam a vir, 5 dias depois...

Depois de uma conversa com todos os presentes, e que relatamos nossas sensações e impressões, fomos embora.

Obrigado a quem propiciou essa experiência tão incrível, mágica e de amor.