Depoimento| 19/02/11 - SP

Na chamada "civilização" ocidental, estamos todos presos a um modo de vida que privilegia a acumulação material, a superficialidade, a artificialidade, o distanciamento do real.

Como pode ousar querer ser chamada de "civilização" uma forma de organização social onde mais de um bilhão de pessoas passa fome ou é obrigada a se alimentar do lixo dos outros? Obviamente algo está muito errado.

O que nos prende? Uma série de necessidades, em parte reais (alimentação, moradia, etc) e em parte fictícias (conceitos difíceis de definir, como "sucesso", status social, etc.). Não vou elaborar aqui sobre a realidade ilusória em que vivemos na sociedade contemporânea ocidental, centenas de milhares de páginas já foram escritas sobre isso.

Basta dizer que não plantamos, nem criamos, nem mesmo caçamos ou coletamos nosso alimento. Todo um sistema mercantil se desenvolveu ao longo dos últimos séculos, até o ponto, no século XX, onde nos alienamos totalmente da origem do nosso alimento. Paralelos podem ser traçados em outras esferas de nossas vidas e necessidades.

Isso tudo nos prende a um modo de vida. Depois da minha primeira experiência com a Ayahuasca eu vislumbrei uma metáfora para essa prisão: estamos "engessados", ou "cimentados" a uma parede. Nossos braços e pernas estão firmemente presos. Não conseguimos nos mover. Não conseguimos procurar outros caminhos, não sabemos como construir uma outra realidade, mais próxima de nossas reais necessidades. Vivemos presos, sofremos, e procuramos alívio temporário em uma miríade de distrações, diversões, consumo, anestesia.

Como podemos nos libertar? É certo que muitos de nós procuram essa liberdade durante boa parte de nossas vidas, através de livros, músicas, artes plásticas, filmes, teatro, convívio com pessoas de mente aberta, relacionamentos amorosos. Procuramos abrir nossas mentes, livrarmos-nos de idéias pré-concebidas que nos foram alimentadas pela sociedade em que vivemos: através da escola, pressão social, marketing, dogmas religiosos, dogmas políticos. Tentamos meditar, procuramos psicoterapias, yoga, ayurveda.

Na minha experiência pessoal, todas as minhas buscas por libertação no máximo funcionaram até certo ponto. Mas na maior parte falharam. Até agora.

Um processo ancestral, cuja origem é difícil de ser determinada, me mostrou um caminho muito promissor. Eu, que sempre fui avesso a rituais ou qualquer situação que tenha o menor parentesco com religião, me deparei com um processo que se provou extremamente eficaz para me ajudar a me auto-compreender, me auto-conhecer, e pela primeira vez de fato construir uma vida com real significado.

Digo isso como "marinheiro de primeira viagem", e pessoas mais experientes podem considerar minhas colocações como precipitadas ou presunçosas. Mas para mim não há dúvida.

Minha primeira experiência com a Ayahuasca foi ao mesmo tempo assustadora, muito séria, muito complexa, muito simples, e principalmente apaziguadora. A sensação de paz que experimentei só teve paralelo em minha vida em um único relacionamento amoroso, por sinal recente, e onde essa paz era permeada de insegurança e medo.

E a compreensão de mim mesmo que encontrei agora (por mais incipiente e embrionária que ainda seja) foi por si só um achado incomparável.

Por que assustadora? De início, vieram, é claro, todos os meus medos. O chá fez efeito! O que está acontecendo? Por que todas as folhas de todas as árvores mudaram de cor? Tudo está colorido, tudo se move de maneira diferente! Uma beleza indescritível... Já ouvi falar que as pessoas passam mal, vomitam... Acho que preciso vomitar!

Ao mesmo tempo em que eu tinha um primeiro vislumbre do que era obviamente uma parte enorme da realidade que eu sequer sabia que existia (da qual eu já havia "ouvido falar", e que me impressionou pela beleza, complexidade, e realidade), meu proverbial "medo de ser feliz" me segurou e disse que isso era impossível, e que deveria ter algo de errado aí.

Todos os meus medos, juntos. Como sempre, para me impedir de olhar para mim mesmo e me aceitar, acolher a mim mesmo, sem me julgar ou me cobrar (como sempre fiz). Para me impedir de enxergar o meu verdadeiro lugar no mundo, no universo, como parte de um todo complexo, como parte de um conjunto infinitamente gigantesco e com sentido e propósito.

Todos os medos, cultivados ao longo de 40 anos vivendo na cúspide da era industrial-tecnológica, onde eu "aprendi" que não sou digno de nada que eu possa querer. Onde "aprendi" que só posso obter algo através de sofrimento. Onde "aprendi" que sou inadequado, insuficiente e impotente diante do mundo mercantil, capital e mercadológico. E onde "aprendi" e tive gravados em minha psique todos os dogmas morais judaico-cristãos-luteranos em que chafurdamos há séculos.

E diante de meus olhos tudo tinha cores deslumbrantes. Eu de fato via o mundo respirar na minha frente. Só é possível realmente entender essa experiência passando por ela.

Felizmente minha necessidade de paz e auto-compreensão foi "pega no colo" pela Ayahuasca. Eu me deitei numa rede, respirei fundo e disse a mim mesmo: "você não precisa vomitar — você só está com medo — só precisa relaxar."

Eu respirei fundo. Um suspiro realmente, o maior suspiro que dei na minha vida. E pronto, tudo fez sentido. Desde os relatos de Aldous Huxley até as máximas Budistas, passando por todas as obras de arte, visões místicas, e tudo que procurei a vida inteira para tentar entender o que sou, onde estou, para onde vou. Em um instante tudo ficou claro de uma vez, e eu estava perfeitamente consciente, e ao mesmo tempo imerso em um mundo totalmente novo.

Todas essas idéias e conceitos que, ditos fora de contexto, podem soar como clichês vazios, lugares-comuns ou frases piegas. Mito da caverna de Platão; a ilusão da realidade; todos somos um só; eu sou aquela árvore; eu sou as cigarras cantando; um mundo melhor é realmente possível. Eu vi, senti tudo isso, e era obviamente real.

E eu ria — não gargalhadas, mas aquele riso de satisfação e felicidade característicos de uma criança pequena, soando através das cordas vocais de um homem de meia-idade. E suspirava, e dizia "mas é óbvio!"... E ria um pouco mais.

Não é à toa que essas idéias e conceitos foram digeridos pela mídia e transformados pela sociedade ocidental em clichês vazios: não interessa ao poder vigente que as pessoas se libertem. Se cada um realmente encontrar um caminho que queira trilhar, que possa desenvolver realmente, o mundo capitalista ocidental contemporâneo entra em colapso, perde na mesma hora qualquer suposto "sentido", qualquer poder que tenha sobre as pessoas. Na vida cotidiana, é praticamente impossível enxergar através da ilusão metodicamente construída pelo poder, pelo dinheiro, e por sua porta-voz, a publicidade.

E, assim que eu consegui respirar fundo e relaxar, disse para mim mesmo, pela primeira vez na vida realmente acreditando no que estava dizendo: está tudo bem.

Era o que eu precisava nesse momento da minha vida. Simplesmente me aceitar, sem julgamento ou cobrança. Ter paz. Pra poder começar a trabalhar de verdade, me desenvolver pra valer.

Juntando o medo inicial, o relaxamento corporal, a sensação de paz, eu me senti como um recém-nascido. Com a vida inteira pela frente.

E, nessa primeira vez, não fui muito além disso. Está claro para mim que apenas "arranhei a superfície" de algo enorme e muito poderoso. Que é o universo em sua totalidade, e que ao mesmo tempo sou eu.

E sei que tenho uma enormidade de questões para resolver.

Minha impressão, naquele momento, era a de que eu estava na beira de um oceano enorme, provavelmente infinito. E eu me contentei em simplesmente entrar na água até a cintura, como uma criança pequena "ousa" entrar no mar, apenas na beirada, e fica maravilhada com a situação. Só entrar um pouco nessa água já me trouxe paz, e uma compreensão de que de fato tudo está bem, apesar de todos os pesares. Que tudo tem solução. Que eu posso aprender, entender a mim mesmo e ao mundo, e achar o meu real lugar.

Agora eu quero voltar, e de fato mergulhar. E encontrar todas as respostas para todas as minhas dúvidas, apreensões, questionamentos. Aos poucos, ou no ritmo em que eu for capaz.

Agora eu sei, sem a menor dúvida, que é possível. Que é apenas uma questão de fazer, de me permitir buscar.

Ficou muito claro para mim que a Ayahuasca é um caminho de cura, e que isso passa por olhar para mim mesmo com clareza.

Se conseguíssemos chegar a esse estado de consciência sozinhos, tanto melhor. Eu até hoje não consegui, e sei que é uma empreitada praticamente impossível para a maioria das pessoas que vivem na sociedade ocidental. A Ayahuasca é uma ferramenta de libertação, que possibilita ao ser humano realmente olhar para si mesmo e aprender a se compreender.

Fico muito feliz e muito muito muito grato de ter descoberto esse caminho, e ainda por cima tendo um amigo a quem prezo muito como guia.

No final daquele dia, com uma Lua cheia no céu, a impressão que tive era que eu tinha acabado de pousar num novo planeta a ser explorado.

OM!